Spoilers, Sweetie! S08E10 – In the forest of the night

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Mea culpa: depois de assistir esse episódio fiquei cantarolando Call me Maebh. Infame, eu sei.

Costumo ser uma grande defensora de citações literárias na cultura pop, inclusive acho que os roteiristas dessa temporada comeram mosca: o primeiro episódio  poderia ter sido chamado de A Décima Segunda Noite em vez de Deep Breath: não apenas faria um paralelo com o The Eleventh Hour, que apresentou Matt Smith, mas ainda teria ecos shakespearianos, ou seja, só vantagem. Mas enfim. O episódio dessa semana trabalha com duas grandes referências para construir a história. A primeira já está contida do título: In the forest of the night é um verso de um poema de William Blake chamado Tyger Tyger. A outra grande referência são os contos de fada, porque a história funciona segundo as convenções do gênero. Mas como essas duas referências se juntam, e qual o verdadeiro papel delas para a construção do episódio?

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1) Tyger Tyger

Salvas as devidas proporções (e temáticas, e finalidades), Tyger Tyger é o equivalente britânico a um “Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá”: toda criança conhece, estudou na escola. É o poema mais antologizado da Grã Bretanha. E um dos que mais “vazam” para filmes, desenhos e seriados (original e versões em português nesse link aqui) Citá-lo está longe de ser uma ideia original. Esse poema faz parte de um livro chamado Canções da Experiência (1794), um contraponto a um primeiro livro de poemas entitulado Canções da Inocência (1789). O que pouca gente sabe, ao menos aqui no Brasil, é que Tyger Tyger faz um paralelo com um poema do Canções da Inocência chamado The Lamb (versão e tradução aqui). No primeiro poema, o eu-lírico (OK, é muito esquisito escrever “eu-lírico” em uma crítica de Doctor Who) indaga ao cordeiro se este sabe quem poderia tê-lo criado. A resposta, para a mitologia de Blake, é Deus (no poema associado à figura de um Jesus menino, também chamado de cordeiro). Ou seja: a personificação da inocência e da bondade foi criada por um Deus também inocente (porque criança) e bom.

Tyger Tyger também é um poema totalmente inquisitivo. O Tigre é associado à beleza, claro, mas também ao fogo, à agilidade, à destruição e ao medo que nos inspira. No entanto, o eu-lírico  questiona: “What immortal hand and eye/Could frame thy fearful symmetry?”. A resposta para a questão, no entanto, é a mesma encontrada no poema sobre o cordeiro: Deus. Não o Deus associado à figura de um menino, no caso, porque aqui ele adquire o papel de um ferreiro. O criador do tigre não o fez com a compaixão e a sensibilidade do cordeiro; suas ferramentas foram martelos, fornalhas e bigornas. Dois animais diferentes que, longe de representar em si o bem e o mal, representam diferentes aspectos da natureza. Esses animais foram criados por um mesmo ser que tampouco apresenta uma faceta só, mas várias. Cês já sacaram onde pretendo chegar? A citação do título tem menos a ver com o tigre real que aparece em poucas cenas lá pelo meio do episódio, e mais a ver com a Clara.

O episódio se fia no gancho deixado por Flatline: tornar-se o Doutor (ou mesmo viajar com ele, como bem pressentiu o Perkins) tem consequências. Muda a vida das pessoas. Se no arco da Impossible Girl a Clara era um cordeiro –  tendo se oferecido de bom grado ao sacrifício quando entrou na linha temporal do Doutor e se partiu em incontáveis versões que nasceram e morreram tão somente para protegê-lo – os últimos episódios nos mostraram que há um lado sombrio em sua personalidade que destoa da doçura inicial. Ela está se aproximando do tigre –   não mais hesita em enganar tanto o Danny e o Doutor, mesmo que pense estar fazendo o bem para um ou outro. E aquele preview de semana que vem… pfff… o que a “escolhida da Missy” será capaz de fazer?

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2) Contos de Fada

A estrutura dos contos de fada não é estranha para nenhum de nós. Histórias simples com elementos fantásticos e personagens geralmente unidimensionais (que representam vícios e virtudes) envolvidos em uma aventura. Na Idade Média os finais eram violentos e a moral da história não era lá uma preocupação, mas desde o século XIX  – e pensando no processo de disneyficação, no século XX – os finais costumam ser felizes, e a lição do dia é sempre aprendida.Em In the forest of the night só funciona se a gente aplicar a lógica meio capenga dos contos de fada à história. Até porque as referências estão lá. Vamos  a elas.

1) Ao sair do museu e ver a floresta tomando conta do espaço exterior, Ruby se pergunta “Nós não poderíamos ter dormido por tanto tempo, poderíamos?” – A Bela Adormecida. Uma floresta de espinhos cresce ao redor do castelo em que Aurora dorme.

2)  O Doutor chama a Clara de Chapeuzinho Vermelho. E Maebh está com um casaco com capuz vermelho, e há uma cena em que ela é perseguida pelo lobo que escapou do zoológico.

3) Maebh também deixa material escolar, o celular e outras coisas suas marcando o caminho para que a encontrem, assim como João e Maria deixam uma trilha de migalhas de pão para acharem o caminho de volta através da floresta.

Porque de outra forma não é possível explicar aquele roteiro. As árvores aparecem por toda a Terra para nos proteger de uma tempestade solar da magnitude daquela que destruiu o planeta do Banco de Karabraxos, ok, consigo comprar isso. O que eu não consigo comprar – e estou atribuindo à lógica dos contos de fadas para não dizer que o episódio tem mais furos do que meia arrastão – é:

– O fato de terem emburrecido o Doutor para ganhar tempo de tela na resolução do conflito. Quando ele viu as árvores tomando conta do planeta ele afirmou que era uma invasão. E que elas – ou alguma forma alienígena qualquer – estavam querendo alguma coisa, muito provavelmente fazer mal aos humanos. O Doutor NUNCA presume isso. Inclusive, no último episódio, Flatline, ele dá todas as chances possíveis aos monstros. Aí vê uma floresta e pensa: “É uma invasão!”. Mas fica pior, porque o Doutor vê que as árvores não podem ser queimadas. E ele intui a explicação para isso, na história do controle de oxigênio (ok, não vou questionar a ~ciência~ da coisa). Ali fica claro ao espectador que as árvores são amigas não comida!, até porque ainda há o desenho da Maebh – no qual o sol manda “raios” para a Terra, cheia de árvores. Árvores que não podem ser queimadas. Impossível para o personagem do Doutor não fazer essa conexão.

– Mr. Pink se diz um professor tão dedicado, acha inconcebível não proteger e guiar as crianças… e na contagem noturna em um museu TRANCADO perde uma garotinha e sequer se dá conta. (A Clara não é lá grandes coisas como professora mesmo. Em vez de ligar para as famílias dos guris ela liga para o Doutor, é claro).

– Clara e Danny planejam encontrar a Maebh, que está com o Doutor, para depois seguirem até as famílias das crianças. Mas quando chegam na TARDIS se esquecem completamente da garotinha. Maebh também vai embora sozinha por motivos de: sei lá. Por que estava se sentindo culpada, achando que era responsável pelo crescimento das árvores? Por que estava sem os remedinhos? Não sei. Irrelevante.

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As crianças foram um bom toque à trama, ainda que representassem tipos batidos como a guria noiada ou o valentão, mas o efeito colateral foi a diminuição de tempo para a trama da Maebh, que foi vendida como a principal mas que teve um acabamento descuidado. Menininha surta depois que a irmã vai embora e começa a “ouvir vozes e pensamentos”. Só que não era um surto, mas provavelmente alguma habilidade telepática. Ela dá o recado ao mundo, salva o planeta, pede para a irmã voltar para casa, reencontra a mãe que estava procurando por ela de boas na floresta – cês não vão me dizer que aquela mulher estava preocupadíssima, porque não estava –  e consegue o seu final feliz. Porque a irmã fugida ( e jamais saberemos por que fugiu) estava esperando pelas duas escondida em um arbusto. Sério, o que essa menina estava fazendo no arbusto?!?!?!

A mensagem final é bonitinha, se você gostava de Capitão Planeta, é claro. Eu quase estava esperando uma encarnação da Gaia naquela hora em que a Maebh dá voz à consciência das árvores. Mas é isso: proteja o meio ambiente porque ele protege você. E os contos de fada existem porque os humanos tem um super-poder: o esquecimento. Transformam os seus grandes medos e traumas em histórias, que são transmitidas às próximas gerações. “Se os humanos se lembrassem parariam de guerrear. E de ter filhos”. (O que é uma ideia bastante interessante).

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Chega mais, vamos fazer uma DR sobre o casal da temporada.
– Qual é a do Danny? Em The Caretaker ele colocou a maior banca do mundo dizendo “se você mentir para mim eu vou terminar com você”, e mesmo depois de trezentas mentiras da Clara (porque convenhamos, não foi uma nem duas) ele continua lidando super bem com isso, não rola nem DR. WTF, Danny?

– Do mesmo jeito, qual é a da Clara? Ok, já entendemos que ela não quer largar a vida dupla, mas pera, se uma pessoa é sem imaginação o suficiente para não querer nem dar uma voltinha na TARDIS – por mais que você não vá com a cara do Doutor, convenhamos, é a carona de uma vida! – a relação com uma pessoa que é viciada nessas aventuras pode ser complexa.

Outros pontos importantes:

– Meu coração balançou quando ouvi o Doutor repetir para a Clara as mesmas palavras que ela usou para jogar na cara dele que ele deveria participar da decisão em Kill the Moon: ele não é terráqueo, mas é tipo aquelas visitas que já são de casa: chegam, põem os pés para cima, abrem a sua geladeira e tomam as suas cervejas. E ele entende, e tenta usar como material de argumentação o fato de que não pode deixar a Terra no que ele pensa ser o momento da destruição iminente: “Esse é o meu mundo também. Eu ando por sua terra, eu respiro o seu ar.

– “Eu espero que esteja certo. Seria um pouco constrangedor se a Terra fosse destruída, depois disso.” Foi uma piada, mas fiquei um pouco preocupada: não seria a primeira vez que o Doutor poderia mentir para salvar alguém. The Parting of the Ways, alguém?

– O que foi uma surpresa para a Missy? O fato do planeta não ter sido destruído? A Clara e o Doutor se dando tão bem? WTF, Missy?

– Aliás, quem mandou a Maebh procurar o Doutor? Ela captou o pensamento da Clara (Miss?) ou o pensamento da Missy?

E aí, o que vocês acharam de In the forest of the night? Não somos a Maebh, precisamos de comentários. O plano era escrever uma seção sobre minhas teorias para sábado, mas essa crítica já ficou ridiculamente grande, então acho que a boa vai ser sentar e esperar pela primeira parte do final da série. Nos vemos na semana que vem: segurem o forninho até lá. 🙂

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14 pensamentos sobre “Spoilers, Sweetie! S08E10 – In the forest of the night

  1. Foi um episódio ok , nada extraordinário mas foi legal , uma coisa que percebi foi o comentário da Clara de que “não é preciso todos morrerem , alguns podem ser salvos” o que me lembrou diretamente o episodio de Pompéi , no qual de fato o Capaldi participou como o pai de familia que era salvo pelo 10º Doctor

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  2. Sentimentos dúbios pelo episódio.
    De fato, o Doctor bateu cabeça geral. Até dou um leve desconto, pois ele ficou de “babá” da pequena Maebh, e ele já deu muitas provas que não sabe lidar com crianças. Dá tela azul ali (ao menos, parece).
    Agora, concordo que foi imperdoável, tanto da Clara como do Danny, “perderem” justamente a garotinha que tomava tarja preta. Poxa, a escola da Susan já teve professores mais preocupados, a ponto de seguirem uma garotinha indefesa até um ferro velho e ver se ela estava bem. E olha que era boa aluna, com boas notas, nada parecida com a Courtney, por exemplo (aliás, senti falta dela na excursão).
    Também fiquei com a impressão que o “recado” da Maebh foi passado pela Missy. Eis a questão: se Missy queria que a menina achasse o Doctor, por que a cara de surpresa com a solução do caso? Missy só entende de morte, nada de plantinhas? Foi a Clara que a deixou surpresa?
    Se realmente teve uma supresa na minha cabeça foi a “garota das hortensias”. Poxa, adolescentes simplesmente não somem de casa – jovens são raptados ou fogem de um lar desestruturado. Ou querem ir pro circo (e hoje, com o Circu du Soleil isso me parece meio fora de propósito). Fugiu por que? Voltou por que? Tava presa nos arbustos? Droga, fiquei mais embaralhada com esse papo todo do que com o episódio inteiro.
    Quase encerrando, também estou achando estranha a relação Clara/Danny. Sendo apaixonada por Doctor Who, se um namorado chegasse e me falasse pra apagar minhas fotos do McGann e do Tennant do computador, cortasse relações com a série, e coisas afins… Gente, nem se fosse um clone do McGann (voz e tudo), eu ficava com o cara… well… talvez ficasse um pouquinho (tirar casquinha não mata)… OPA, será que a Clara está só tirando uma lasquinha rosa do Sr. Pink? o.O
    Finalizando – Season finale promete e promete muito. Vamos esperar pra ver.
    PS – Cadê Podast? Cadê você? ou vim aqui só pra te ver =D

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  3. Achei episódio sonolento e mal escrito, como foi mencionado no post, tem muitos furos e até uma preguiça de dar acabamento às coisas . No geral, um episódio bem filler mesmo, daqueles que você diz pros amigos “pula esse” quando eles te perguntam como assistir.

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  4. “O que foi uma surpresa para a Missy?” – Acho que foi a postura de ‘sacrifício’ da Clara. É um lapso do cordeiro naquela que vinha diretamente rumo ao tigre, nas tuas palavras. Pode ser esse algo que sobrou o gancho para a redenção dela no episódio final.

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  5. Foi o episódio despretensioso da temporada. Bobinho, divertido, com uma liçãozinha no final, mas acima da média do que eu tenho visto nesta temporada. Acho que depois daquela dobradinha (ao menos pra mim) terrível de “The Caretaker” e “Kill the Moon”, o Doctor finalmente se encontrou no “Mummy on the Orient Express” e de lá pra cá a série está numa crescente muito boa!

    Também estou curioso com quem mandou a Maebh procurar o Doctor, não deixaram isso muito claro.

    Agora vamos ver qualé a do finale, pelo teaser vai ser algo grandioso! Finalmente vamos descobrir quem diabos é a Missy, teremos a volta da Unity e, aparentemente, a Clara vai virar a casaca 😄 Expectativas ao máximo!

    E bom, sem querer ser chato, mas já sendo: quando volta o podcast?? To em abstinência aqui hahahaha

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  6. Ainda bem que tem a crítica da Gabriela, pq eu assisti esse episódio no automático.
    Teve umas piadas bacanas, mas nada instigante. Nada que me levasse pra dentro da história. Então só, tipo… passou.

    Obrigado por pensar por mim. hehe

    Curtido por 1 pessoa

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