Spoilers, Sweetie! S08E08 – Mummy on the Orient Express

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Eu queria inserir uma piadinha para abrir o texto mas estava ocupada demais ouvindo Queen.

O Universo é mesmo viciado na cultura da Terra. Depois que os humanos resolveram procurar outros planetas e alcançar as estrelas, outras culturas aparentemente nos acharam uma raça muitíssimo peculiar. Há por todo Cosmos um sem número de Festas Ploc celebrando não apenas a década de 80 do vigésimo século terreno, mas toda a nossa história. Vencemos na vida, companheiros, a imortalidade é nossa – ainda que nossa cultura seja canibalizada até não poder mais e, no momento do fim da Terra haja uma Jukebox sendo chamada de Ipod tocando Toxic. (The End of the World S01E02) De todo jeito, para compensar o carma, deve haver em alguma galáxia distante uma religião que idolatra, sei lá, a figura do Stephen Hawking.

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Em Mummy in the Orient Express temos a linha de trem imortalizada por Agatha Christie no espaço, cenário perfeito para em episódio em que um detetive resolve os diversos casos de assassinato perpetrados por… uma múmia. Mas vamos ao plot. O Doutor e Clara estão celebrando a despedida de ambos com uma última viagem. Passaram-se várias semanas desde os eventos de Kill the Moon e, apesar da Clara ter passado por diversos estados emocionais – do ódio à compreensão e finalmente à saudade – ela mesma se dá conta de que jamais poderá odiar o Doutor e, no entanto, que também não pode continuar levando a vida dupla de professora e tripulante da nave louca do BBB de Gallifrey. Por isso, a “viagem de despedida”. The last hurray!

Aham, Clara, senta lá.

Aham, Clara, senta lá.

Todo mundo sabe que essa história de ficar fazendo revival depois que um relacionamento termina é a maior furada. Vamos lá, todo mundo já passou por isso. Deu certo? É claro que não. É o tipo de coisa que vai terminar em lágrimas. O Danny até diz que a Clara não pode “terminar com o Doutor”, uma vez que eles não namoram mas, olha… você teve sua chance de pular fora da TARDIS quanto podia, mocinha. Agora as coisas não devem terminar bem. A trilha sonora do início do episódio já prenuncia que a Clara não terá coragem de largar a vida com o Doutor. Don’t stop me now, é claro, para dois viciados na aventura que uma máquina do tempo temperamental proporciona. A vídeo completo da performance da cantora Foxes você pode ver aqui. (Metade das visualizações devem ser minhas: estou ouvindo esse cover no repeat desde sábado)

O passeio pelo Orient Express do espaço, no entanto, não era tão tedioso inofensivo como o Doutor havia prometido, afinal. Isso porque: o Doutor mente, é claro. Ficamos sabendo mais tarde que por várias vezes ele já havia sido convidado a embarcar no trem. E, ainda que ele quisesse dar a Clara uma última boa memória, não se conteve a investigar. Bem, as mortes começam a acontecer. Piscam as luzes e o único infeliz do vagão que estiver sendo assombrado pela múmia tem 66 segundos para aproveitar a vida antes de abotoar o paletó de madeira, ou seja qual for o material que se use a confecção de caixões naquele tempo. E o que é pior: não se demora a descobrir que o trem está imensamente povoado de historiadores, arqueólogos, mitólogos e toda a espécie de nerds entendedores de múmias possíveis.

O Doutor e Clara se separam para que o episódio consiga atingir as duas frentes na qual batalha: o mistério propriamente dito e o desenvolvimento de personagens. Enquanto o Doutor está investigando, conhecendo o Perkins (melhor quase-companion em muito tempo) e sendo desagradável com os outros viajantes, Clara está trancada em um compartimento com Maisie, neta da primeira morta do dia no Orient Express.

A situação de Maisie espelha a situação da própria Clara. Quando ela diz que se sente culpada porque imaginou durante muito tempo a morte da avó horrorosa (e depois descobrimos que a velha era nível Dalek de maldade!), Clara tenta confortá-la dizendo que ela não fez nada de errado, porque “Pessoas difíceis podem te fazer sentir… todo tipo de coisas”. E, pior, quando a conversa continua. Maisie fala com a Clara que, apesar de tudo o que ela diz sobre o Doutor, ainda assim está em um trem com ele. Clara responde que estava dizendo adeus. “Você não pode terminar com uma porta batendo”.

Mas Maisie retruca “Sim, você pode. Qualquer um pode. As pessoas fazem isso o tempo todo. Exceto, é claro, quando não podem.” É claro, há duas leituras possíveis na fala da Maisie, a menos nessa altura da temporada, em que não temos todas as peças para juntar o quebra-cabeças. Na primeira Maisie está se referendo apenas ao vício da Clara, à vontade semi-consciente que ela continua tendo de estar junto ao Doutor. Na segunda, isso pode muito bem ser um foreshadowing, uma fala premonitória: não poder bater a porta também pode significar que o tempo da opção já passou e é hora de lidar as consequências.

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Enquanto isso, o Doutor entende que o Orient Express é, na verdade, uma armadilha, e que ele, o Perkins, o chefe da segurança e os nerds egiptólogos do espaço estão presos nela para  resolver o enigma da múmia – conjurada por um pergaminho antigo – antes que sejam todos mortos. Ah, sim, e o Sistema Operacional que cuida dos prisioneiros, o Gus, está longe de ser um consciência cibernética bacana: é como se o Hal 9000 e a GLaDOS tivessem um filho que curtisse fazer um cosplay vintage – daí o monóculo.

As pessoas começam a morrer e o Doutor nada pode fazer para salvá-las. Só pode fazer com que falem para dar informações necessárias para conhecer melhor o a múmia. Os cozinheiros morrem por imprudência do Doutor, que desobedece o Gus, sem saber do que ele é capaz. E quando ele pede que Clara minta por ele para a Maisie, alegando que não pode salvá-la (a múmia aparentemente pega os mais frágeis primeiro, aproveitando-se de doenças ou desequilíbrios emocionais das personagens), mas que é preciso levá-la ao vagão em que eles estão, a gente quase acredita que o Doutor deixará as coisas por isso mesmo. É o mesmo alien que deixou a Clara com a decisão de matar a lua nas mãos, escondendo dela fatos relevantes. Assim como é o mesmo que, sem hesitar, ofereceu à Saibra o que ele achava ser uma morte misericordiosa em Time Heist.

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No entanto: o Doutor mente. Ainda bem. Transferindo para si a confusão mental da Maisie, ele é capaz de chamar a múmia para si, entender como ela funciona  – 66 segundos parece um tempo muito cronometrado para um ser orgânico – e desarmar o mecanismo que transformou um combatente morto há muito tempo em arma de guerra. A conversa na praia com a Clara arremata o que parece ser a conclusão de diversos episódios sobre a nova personalidade do Doutor. Clara diz: “Então você estava fingindo não ter coração?” O Doutor responde: “Você gostaria de pensar isso a meu respeito? Isso tornaria as coisas mais fáceis para você? Eu não sabia se poderia salvá-la.  Eu não pude salvar os outros. Havia uma boa chance de que eu não pudesse salvá-la também. Nesse ponto, eu iria apenas para o próximo, e o próximo, até que eu vencesse a múmia. Às vezes as únicas escolhas que você tem são as más… mas você ainda tem que escolher”.

Essa fala me agrada particularmente porque é de uma coerência absurda com o Doutor que ainda não sabia bem quem era ao final de Deep Breath, mas tinha certeza de que em 2000 anos fez muitas coisas, nem todas elas boas, e estava mais do que na hora de começar a consertá-las. Os dilemas morais dessa temporada não tem sido mais desafiadores que os das temporadas anteriores. A grande mudança é realmente a postura do Doutor diante deles.

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Pela força do hábito, vamos às considerações finais, topicalizadas:

– Quem está por trás do mistério da armadilha do Orient Express? Quem era o gênio do mal que estava tentando levar o Doutor para o trem há tanto tempo? Teria ele a ver com a Missy, ou o grande arco da temporada?

– E vejam só: o monstro da semana é, mais uma vez, UM SOLDADO. Um zumbi controlado por um dispositivo que o transformou em uma arma poderosa. Não é possível que seja uma mera implicância do décimo segundo Doutor: algo grande vem por aí, e essa picuinha com o Danny e todos os outros soldados que apareceram na oitava temporada ainda vão render.

–  O Doctor Who.tv fez uma compilação de referências tanto à série clássica quanto à moderna. A matéria esquece de mencionar que a gravata borboleta frouxa (isso deve ter um nome “científico”, mas eu não sei qual é) era do primeiro Doutor e que há uma menção ao Orient Express em S05E13 The Big Bang. Eu realmente acho fantástico que os roteiristas estejam colocando tanta coisa porque, suponho, o Capaldi é esse fã hardcore da série clássica. Aliás, por falar em fã, vocês viram esse vídeo aqui? Estamos todos nos sentindo um pouco menos ridículos agora? Capaldi ftw. ❤

– Perkins, você partiu meu coração quando recusou uma carona na TARDIS. Você é tão badass que o Doutor foi loucamente com a sua cara desde o início do episódio e mesmo assim você não morreu! BBC, por favor, ajeite um contrato com o Perkins, nem que seja por alguns episódios.

E aí, o que vocês acharam de Mummy on the Orient Express? Semana que vem a gente volta com uma crítica desse episódio esquisito de alguém que parece ter lido muito Planolândia na vida. Mas vamos aguardar. Até.

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18 pensamentos sobre “Spoilers, Sweetie! S08E08 – Mummy on the Orient Express

  1. Clara inacreditavelmente maravilhosa no episódio. Aliás, um bom episódio. Fiquei até chocado de ter gostado tanto – Perkins é divertidinho mesmo, o visual é bacana, o Doutor está demais, a ameaça é interessante. Só não fica claro quem que trouxe eles pro trem, mas… Doctor Who nunca explica nada mesmo, então.

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  2. Essa resenha possivelmente foi a mais engraçada, e sem abandonar o lado crítico, bem ao estilo whocares, parabéns!

    Sabe, uma coisa que os roteiristas vem batendo muito na tecla, principalmente nessa temporada, e que vem me incomodando é essa ênfase em quão sombrio o Doctor precisa ser, e o medo da questão se é um bom homem, como é difícil ser ele e todo o lado dramático embutido nisso, etc. Não sei se vocês também sentem isso, mas essa abordagem massiva acaba deixando a séria muito “séria” e repetitiva. Vejam bem, eu adoro esse aspecto, tenho simpatia por personagens que têm esse dilema moral, ora agem como vilão, ora agem como mocinho, acho que são bons espelhos de nós mesmo, mas tudo que é demais né…mesmo na primeira temporada que, em teoria, tem o Doctor mais traumatizado esse assunto não foi tão recorrente, foi mais aleatório e sutil, lá era mais aventura, tosquice e diversão. Em resumo, acho que eles deveriam deixar esses grandes dilemas e ensinamentos morais para episódios mais esporádicos, como era feitos nas primeiras temporadas

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  3. Muito legal a resenha!

    Esse episódio foi muito divertido e expôs a maneira como ele lida com os dilemas morais, como você bem disse. Legal a forma como a Clara passou a compreendê-lo, ao mesmo tempo, vendo que ao final ela gosta disso tudo.

    As referências a série clássica foram muito boas, e ter um ator que as compreende é bem legal. A hora da Jelley Belley foi muito bom!

    O Gus foi interessante mesmo, bela referência a 2001. Tivemos outro soldado cumprindo ordens sem pestanejar e sem “questionar”, a múmia.

    Pareceu um comparativo, pois o Gus fora programado para isso, sendo uma máquina, não pensamos que ele poderia ser diferente ou tomar outras atitudes. Mas o sofrimento gerado por ver aquela múmia feliz por poder parar ao receber a ordem exata é muito grande. Essa comparação máquina X humanos, determinismo X liberdade, foi muito interessante. A própria questão do Doutor abordar de maneira direta que nem sempre tem boas escolhas em suas mãos faz parte dessa discussão toda.

    Tivemos a Meise sentido-se culpada pelo desejo de morte, mesmo sabendo que sua avó não era flor que se cheira. Novamente a culpa perpassando o dilema do episódio, que inclui Gus, Múmia, Clara, Doutor…

    Muito divertido todo o clima do episódio e interessante como os dilemas foram aparecendo.

    Tudo de bom!

    Tiago

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  4. Quando eu vi esse episódio pela primeira vez, eu tinha adorado a trama dele e tinha ficado meio decepcionado com a forma como o conflito com a Clara havia sido resolvido.

    Entretanto, ao rever esse episódio pela segunda vez, eu gostei ainda mais da trama e de certa forma fui convencido da resolução do conflito com a Clara. Outra coisa que gostei rever o episódio foi a cena da praia. Aquele dialogo praticamente foi a peça que faltava para montar a personalidade do 12th. 😀

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  5. Adorei a crítica/resenha.
    Também estou em looping eterno ouvindo Don’t Stop Me Now – e vejam bem, sou ultra fã do Queen, normalmente torço o nariz para versões em geral e versões do Queen em especial, mas Foxes e a BBC estão de parabéns – a música ficou ultra-mega-hiper supimpa!!!!
    Fora o dragão lunar que bota ovo amarelinho após nascer (não tá sendo fácil, não está sendo fácil não…), fora isso não tenho reclamações quanto a temporada até agora.
    12th ainda não está “fechado” pra mim, ainda há muito espaço para seu desenvolvimento, e creio que Clara ainda é importante para isso.
    Perkins, seu fofo, volte logo!!! A conversa inicial dele com o Doctor, só faltou trilha de duelo de bang-bang. Sem saque mais rápido, ficou um empate em esperteza e pensamento ácido =)
    E, finalizando: Are you my Mumy? Sério?
    Vou morrer ali no cantinho, e regenerar mais tarde =D

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  6. Uma ótima resenha de um ótimo episódio!
    Estou achando a temporada meio fraca, confesso, mas este episódio foi muito bom. Acho que finalmente tivemos a personalidade do Doctor definida, aquela fala dele no final do episódio é incrível! Estou curioso pra saber o que rolou na conversa da Clara com o Danny no fim do episódio. Não estou totalmente convencido que a Clara precisou da “benção” do Danny pra continuar viajando com o Doctor.
    No mais, tinha que ser o Jack Harkness cantando “Don’t Stop me Now” no episódio hahahahaha

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  7. O final de Kill the Moon e o trailer de The Mummy in the oriente express, eu realmente achei que o Doutor estaria sem companion neste episódio. Porém, a Clara desce tão linda, e sensual, da Tardis que de forma alguma fiquei decepcionado.

    O clima que senti da “despedida” era realmente de dois amantes que estavam concordando que não poderiam mais continuar, e não dois amigos indo para uma ultima festa. Mas acho que o episódio também mostrou definitivamente para nós quem é o 12°.

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  8. Foi um bom episódio,a relação Doctor/Clara continua o sendo o destaque da temporada,a conversa dos dois no final foi muito boa.

    O Perkins teve uma ótima participação mas fiquei desconfiado se ele não seria o Gus ou pelo menos soubesse quem era,não me surpreenderia se ele aparecesse mais pra frente na série.

    Quanto a questão dos soldados já está claro que tem algo mais,tomara que o Moffat não decepcione na resolução desse plot.

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  9. Esse foco gigante na Clara da S08, apesar de interessante por desenvolver um personagem que serviu mais de bonequinha do 11º que qualquer outra coisa (potencial disperdiçado), me incomoda um pouco, pois quero ver mais do Doutor Capaldão. Ele é tão diferente das outras encarnações de New Who que se bobear era até melhor deixar ele sem companion fixo por uma temporada inteira, só pra gente poder ver o máximo desse personagem.

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  10. ótima crítica maaaaaaaaaaaaaas senti falta de falar sobre a mudança de coração da Clara que, obviamente, viciada no doutor e nas viagens, não consegue dizer um adeus já.

    no mais parabéns! e que venha o próximo capítulo!

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