Spoilers, Sweetie! S08E05 – Time Heist

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Assaltar o banco mais seguro do Universo > um encontro romântico, qualquer encontro romântico.

Quando o Doutor perguntou à Amy no início da quinta temporada “Todo o tempo e o espaço… por onde você quer começar?”, talvez ele também devesse ter perguntado à altura: “Amy: o que você gosta de assistir no Netflix?”. Porque a preferência por certos gêneros sem dúvida é tão importante para a aventura quanto o lugar e a data em que se deseja ir. Semana passada eu falei um pouco sobre como a série canibaliza e adapta diversas estruturas narrativas. Robot of Sherwood tinha algo de Scooby-Doo, assim como Listen poderia ser descrito como uma mistura de Arquivo X com alguma fábula sombria reescrita pelo Guillermo del Toro. Já Time Heist traz a dica no título: Heist film é o subgênero do filme de assalto, no qual uma equipe se une para executar um plano cheio de etapas e reviravoltas até chegar ao objeto de desejo e, depois, fugir com ele.

Em um dos teasers da BBC o Capaldi define o episódio como uma mistura de Onze Homens e um Segredo com 2001, Uma Odisseia no Espaço. Ele deu uma exagerada. Onze Homens, sim, a referência é bastante clara. Podemos ver ecos no desenrolar do plano , nos ladrões especializados, nas câmeras lentas e nos enquadramentos da equipe. 2001… bem, não. A psicodelia não deu as caras por ali. Talvez Time Heist esteja mais para uma mistura de Onze Homens com O Cubo: cada ladrão tem uma habilidade especial, eles começam a campanha presos em um lugar potencialmente mortal e ninguém sabe como chegou ali, porque todos os membros tiveram a memória apagada. Aparentemente com o consentimento deles mesmos.

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Mas vamos à sinopse. O Doutor tenta arrastar Clara para uma aventura qualquer que não um encontro com Danny Pink quando – SURPRESA – tocam os sinos de St. John. Como pouquíssimas pessoas no universo têm, de fato, o telefone da TARDIS (só lembrando por alto: Churchill, Martha Jones, o Doutor mais uma vez se pergunta: quem era a “mulher da loja” que deu o número da cabine à Clara? No entanto, essa preocupação levantada é brevemente esquecida, porque assim que o Doutor atende o telefone a cena é cortada para eles acordando em um cômodo desconhecido, segurando vermes estranhos na mão. O Doutor, Clara, um “humano aumentado” chamado Psi e uma mutante chamada Saibra escutam a gravação de suas próprias vozes dizendo que concordaram em ter a memória apagada. Logo em seguida, assistem um vídeo em que uma figura encapuzada que se chama de Arquiteto diz que quer jogar um jogo com eles eles estão prestes a assaltar o banco de Karabraxos, o lugar mais rico e seguro do universo. Eles precisam evitar vários perigos e entender as dicas para chegar ao cofre principal.

Embora ninguém saiba o porquê de estar metido em um problema desse tamanho, o Doutor tem uma teoria: no banco de Karabraxos encontram-se recompensas para cada um dos ladrões; e, nesse nível de perigo, há de ser algo bom, do tipo a coisa que você mais quer no mundo. Para os sidekicks da semana a resposta é óbvia: Psi apagou as próprias memórias sobre todas as pessoas que ele amava, para que não as entregasse em sua vida de crimes. Já Saibra não consegue controlar seus poderes: toda vez que toca em alguém se transforma imediatamente na cópia da pessoa. O episódio nos deixa imediatamente pensando no que querem o Doutor e a Clara. Coordenadas para Gallifrey? Haverá uma ligação com algum plot maior?

Assim como a bola levantada da “moça da loja” não, não há. O Doutor logo descobre que foram deixados ali em uma data específica: justamente no dia em que uma tempestade solar irá interferir nos circuitos do banco, possibilitando que uma fechadura atômica quase intransponível seja aberta. O Doutor se dá conta então de que as informações privilegiadas fornecidas pelo Arquiteto só podem ser explicadas pelo fato de ele estar em algum ponto no futuro, e ter enviado os ladrões para o momento exato em que seria possível roubar o banco impenetrável. Assim fica fácil: um assalto temporal.

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Numa série como Doctor Who não dá para achar que a estrada vai ser pavimentada apenas com plots para explodir a cabeça e implicações terríveis para o universo. Time Heist é uma aventura bacana e sem grandes consequências, ponto. O roteiro é redondo, divertido, tem piadas que funcionam, ação e suspense na medida. Ou seja, entrega o que promete e ainda é uma excelente história para o Doutor colocar no currículo na hora de se gabar diante de quem quer que seja: “Lembram aquela vez que eu assaltei Karabraxos?”. Os dois vilões do dia são bem construídos. Ms. Delphox, a chefe da segurança que teme perder mais do que o emprego se não conseguir conter os assaltantes, e seu cão farejador, um bicho conhecido pela alcunha de Teller, capaz de farejar a culpa das pessoas que planejam se dar bem em cima do banco e de transformar o cérebro dos pobres coitados em sopa.

Depois de quatro episódios em que a confusão do novo Doutor foi explorada das mais diversas formas, essa é a primeira vez que vemos o décimo segundo tomar a dianteira da aventura desde o início, explicando para o grupo que ele está no comando basicamente por conta das sobrancelhas. O personagem começa por fim a se consolidar. É de fato um Doutor mais frio: entregará sem pestanejar a Saibra o que ele acredita ser uma morte instantânea (à semelhança dos frascos de veneno usados por espiões que precisam de uma “saída de emergência” para o caso de pararem na mão de seus inimigos), ainda que o faça porque considera a morte rápida um gesto misericordioso. Na hora de discutir a questão com o Psi, que o acusa de usar o título de Doutor com estratégia de distanciamento emocional, ele é categórico: “quando isso terminar você pode encontrar um ombro para chorar, porque provavelmente precisará de um. Enquanto isso, você precisa de mim”.

A conversa entre o Psi e a Clara sinaliza mais uma vez o que provavelmente deve acontecer: ela vai, numa tradição Martha Jonesiana (?), abandoná-lo – se algo terrível não acontecer com ela antes. “Você com certeza está viajando com o Doutor há bastante tempo”, diz o hacker, “porque você ficou realmente boa em encontrar desculpas para ele”. Saibra e Psi (que se sacrificou para que Clara pudesse escapar), no entanto, não morreram. A “saída de emergência” era na verdade um teletransporte que os manteve em segurança, possibilitou que voltassem à Karabraxos antes do pico da tempestade solar e salvou o Doutor e a Clara quando haviam sido capturados – pouco depois de conseguirem a recompensa dos parceiros, mas ainda sem entenderem o que eles mesmos estavam fazendo ali. Havia uma nave de resgate para onde eles foram, para além de uma conhecida cabine azul. As peças do plot começam a se juntar.

 No cofre principal eles encontram Karabraxos em pessoa, e descobrem que a fofa fez clones de si mesma para os cargos de confiança do banco, porque não confia em mais ninguém. No entanto, quando as cópias falham com ela, essa pessoa agradável e simpática não tem o menor problema em se desfazer deles. Madame Karabraxos é, como bem diz o Doutor, “um caso sensacional para qualquer terapeuta”. As pistas começam a se juntar e o Doutor faz as conexões necessárias. Ele se lembra de uma fala da Saibra para explicar o problema de ser um shapeshifter: “como uma pessoa pode confiar em você quando você está olhando para ela com os olhos dela?”. O Doutor odeia o Arquiteto: poderoso, manipulador, esperto. E sabemos que o Doutor não gosta lá muito de si mesmo, vide o Senhor dos Sonhos de Amy’s Choice (S05E07). O Arquiteto não pode ser outro que não o próprio Doutor.

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E assim, em um dos fechamentos de episódio preferidos da era Moffat, mais uma vez causa e consequência se misturam e o paradoxo temporal dá um jeito de atar as pontas do episódio. O Doutor dá o número de seu telefone a Karabraxos, esperando que, em algum ponto do futuro, ela faça a ligação para a TARDIS e peça a ajuda deles para se livrar de algum arrependimento do passado. Ela foge com uma maletinha pela porta dos fundos porque a tempestade solar está em vias de destruir o banco. Pânico, gritaria, confusão e, no meio do caminho, provavelmente um monte de clones tostados.

No entanto, o Doutor ainda não consegue entender por que está ali. É apenas quando o Teller acessa as memórias dele que ele se dá conta de que não estava participando de um assalto a banco, mas do resgate da companheira do Teller, mantida refém por Karabraxos, em uma manobra de chantagem para que ele fosse o executor do banco. Mais uma vez: se a pessoa trata os próprios clones como material descartável, imagina como não se sente a respeito de outras espécies, mesmo que ameaçadas de extinção. Ao menos ao fim da vida Madame Karabraxos parece ter um pouquinho de coração, liga para o Doutor e podemos ver a montagem que explica todo o plano. Tudo termina bem quando acaba bem. Os bichos esquisitões conseguem um planeta desabitado para morar, Psi ganha suas memórias de volta, Saibra não muda mais ao encostar em alguém, Clara volta à Terra a tempo de encontrar Danny Pink e ninguém morreu, o que significa que ainda não temos pista de por onde anda a Missy. Provavelmente está dando festas bizarras no ~Paraíso~. Aliás, ninguém morre há dois episódios inteiros! (O pessoal da prisão fica vegetativo, mas não morre) Isso deve ser algum tipo de recorde, não é impressionante?

Referências, referências por toda parte!

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 – Doctor Who não brinca apenas com gêneros. A série olha muito para o próprio umbigo e repete várias de suas próprias convenções. Um episódio faz eco de outro ou, como no caso de Time Heist, faz eco de muitos. O Teller tem muito do Minotauro de The God Complex (S06E11) – e um dos meus episódios favoritos everz. E a memória apagada voluntariamente lembra a escolha por voto de The Beast Below (S05E02). Já a recuperação da memória do Doutor (em que ele diz ao Teller para se banquetear com as memórias dele) é um ponto importante para o plot de The Rings of Akhaten (S07E07). Claro, aqui os elementos são embaralhados, para usados em contextos e com motivações diferentes. O Teller é movido não por instinto, como o Minotauro, mas por medo que a companheira seja ferida. Por isso mesmo, no momento em que a criatura entende a motivação do Doutor, ele não precisa mais feri-lo. E as memórias apagadas não escondem a abominação que é torturar um ser vivo, mas são necessárias por conta do sensor de culpa. Já o objetivo final do episódio é o mesmo de Hide (S07E09), ainda que ambientado numa história de assalto a banco em vez de uma casa assombrada. No fim das contas ambos os episódios são também histórias de amor.

 – “Depois da gravata borboleta e do cachecol eu estava pensando em algo minimalista, mas acho que acabei parecendo um mágico.” Sem dúvida, Doutor. Certeza que aquelas mangas são maiores por dentro e você consegue tirar o que quiser dali.

– A cena com easter eggs dos vilões na tela do Psi conta com a presença até de um Slitheen. Perdoem-me se estou aqui pensando em como seria ridículo um episódio de uma invasão Slitheen em Karabraxos.

– E por fim: “Shut up, shut up, Shutity up up up up!” Uma piscada de olho para Malcolm Tucker, é claro.

E vocês, o que vocês acharam de Time Heist? Cartas à redação. 😉

Semana que vem nos vemos de novo para celebrar o retorno de John Smith. Até lá.

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17 pensamentos sobre “Spoilers, Sweetie! S08E05 – Time Heist

  1. Assisto Doctor Who basicamente pra me divertir, e este episódio me deu o que eu queria. Zoação com o salto alto da Clara, sobre a aparência de mágico do 12th. Sobrou zoeira até para a gravata borboleta – que é, foi e sempre será cool, nunca embaraçosa.
    Gostei da Saibra e do Psi, sairam deixando uma vontade de “quero mais” , de preferencia com comida chinesa. =)

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  2. Nossa ja tinha esquecido o episódio do carinha mal que manda o Doctor e casal Pond para o universo e no fim era o Proprio Doctor , boa referencia , realmente to achando foda a temporada e sinto realmente uma direção mais Davies com tudo indo calmamente até ir numa épica conclusão que com certeza será com esse negócio do paraiso e , pelo promo com certeza imagino como ficara a situação ao Doctor descobrir que o cara com quem ta saindo é o menino do passado , e ainda por cima com a cisma que ele tem com soldado , com certeza vai ter o mesmo tipo de relação que ele teve com Robin Hood

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  3. achei esse episódio muito mais fraco, com muitos furos na trama, e um roteiro meio fraco, passagens de ar gigantes, sem câmeras e guardas, e os personagens não fazerem sacrifícios reais, sou fã de doctor who, e ao contrario do que pode parecer, eu estou amando esse doutor e essa temporada, mas esse episódio, infelizmente, não me agradou

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  4. O episódio foi incrível. é legal notar a decepção, ou confusão, do Doutor a notar que Psy e Saibra não morreram, e depois descobrirmos que ele foi o próprio a armar os teletransportes, o 12° é capaz de aceitar a morte de alguém, mais não tomaria uma vida, agora acredito que ele não matou o robô em Deep Breath.

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  5. Só tenho um comentário à fazer sobre esse episódio: melhor que Listen! u.u

    OBS: eu achei esquisito o Doctor deduzir que o arquiteto estava em algum ponto do futuro só pela questão da tempestade solar, porque tempestade solares podem ser previstas, e isso na nossa época e com a nossa tecnologia, imagina lá em Karabraxos.

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  6. ola , eu gostei muito desse episodio, na verdade de modo geral to gostando muito do decimo segundo e foi bom ver ele sendo dissecado, ter ele como protagonista de um modo geral, não apenas o professor fodão que resolve as coisa, alais senti falta do quadro negro nesse episodio.

    Outra coisa interessante foi o fato da clara ter sido tratada como secundaria e ter agido com tal, uma companheira mas não como ancora moral do doutor novamente , fato que mudara no proximo episodio.

    pergunta, numa tempestade solar surpresa, quantas pessoas estão preparadas para uma fuga rapida?
    resposta: quase nenhuma, então sim teve morte a vera só ve pela cena da labareda de chamas, isso me lembra viu a cara do doutor quando a metamorfa, erge a mão para toca nele, tipo , tive a sensação que ele queria toca nela pra ver quem aparecia mas ficou com medo, imagine ele toca nela ela assume a forma do primeiro.

    bom como eu disse mais um episodio divertidissimo e parabens pela sua analise, ate mais quarta quensiana

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  7. Eu gostei do episodio leve e divertido , eu particularmente adorei o Psi e Saibra , principalmente a interação deles com a Clara e o Doctor e cada vez mais essa temporada esta se tornando a melhor , desde a volta de DW EM 2005…

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    • O tema do Doutor reflete a sua personalidade. O do 11º é mais dinâmico e alegre por conta exatamente disso. Pegue e compare com o do 9º e o do 10º que são bem introspectivos, vai perceber que encaixam muito bem com eles. Portanto, nada mais justo do que o 12º ter a sua própria música tema também. Vamos aguardar.

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  8. Sinto informar ao resto da Temporada que esse é o melhor episódio da S8!

    Devo ser um dos primeiros a ler a review, yey! Muito boa e com certa precisão faloou exatamente tudo o que eu pensei e lembrei sobre o episódio e mais um pouco. Sua excelência sobrepõe a minha astúcia!

    Agora uma história sobre mim: sou um escritor nato desde que me apaixonei por livros e um dos meus alter-egos favorito se chamava Magus of Dreams. Depois de conhecer Doctor Who eu o renomeei de Dream Lord e batizei de The Architect, que é a profissão que quero seguir. Ele sou eu no Universo de Doctor Who e escrevi várias histórias sobre ele e sua conexão com o Doutor. Então imagina-se a minha exaltação quando ele usou esse codinome para planejar o assalto. Por causa disso eu fiquei de dedos cruzados pra que o Arquiteto não fosse mal e que as pílulas fossem teletransportes. Desejei tanto que me caiu a ficha no meio do episódio sobre esse paradoxo causa/efeito.

    Achei a tradução na legenda um pouco fraca. Teller é o guarda que sabe quando você tá mentindo, o gagueta, x-9, ‘He tells when you are lying’. Ele seria o Delator. Caixas e empregados de bancos em geral são conhecidos como “Bank Tellers” na Inglaterra, o que faz dele um nome fascinante já que ele lê mentes e pode adivinhar suas futuras intenções como uma “fortune teller”.

    Apenas pra finalisar porque você já disse mais que tudo: aquele Raxacoricofallapatoriano foi citado como um membro da família Slitheen? Verei o episódio novamente para garantir!

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